Nº04 - Abr. 2011, 250 ex. }

Texto: Luís Calheiros / Imagem: Tiago Pimentel

Estátua "Bispo D. António Alves Martins"

Autor: António Teixeira Lopes
Data de Inauguração: 18/02/1911

Uma vida exemplar numa época prodigiosa. Prelado único. Clérigo invulgar. Excepção edificante de um clero conservador, ultra-montano, trauliteiro. Também um político radical (leia-se: que vai à raiz das ideias, dos ideais!). Um liberal progressista, chefe local do Partido Regenerador. Deputado eleito que chegou a Ministro do Reino. Ainda irmão de uma outra congregação, a da "fé" fraternal dos livres-pensadores.

O monumento é também uma excepção. Escapando à regra medíocre da nossa arte pública. Um dos melhores exemplos da estatuária das praças portuguesas. Edificado, por suprema ironia, na praça onde o retratado, anos antes, fora condenado à morte pelos esbirros miguelistas. De autoria do escultor Teixeira Lopes. Sugestiva estátua/retrato conforme a estética coeva, cru realismo, na sua rotunda expressão de «Moralidade … e Marmeleiro». No pedestal o dito certeiro: «A religião deve ser como o sal na comida, nem muito nem pouco, só o necessário!».

Uma referência cívica certa para laicos, seculares, democratas e republicanos.

Memória Descritiva

Segundo os meus parâmetros de análise, o personagem descrito fisionomicamente como figura de suporte à obra em questão dever-se-á desagregar da mesma, anulando os seus dados biográficos que condicionam a observação e apreciação. O trabalho criativo existe como tributo, nesta concreta situação, e reproduz, indubitavelmente uma directa ligação entre a personalidade homenageada e a obra artística. No entanto, a intenção desta abordagem visual, como artigo crítico é acima de tudo a valorização do objecto artístico, enquanto experiencia estética. A homenagem dirige-se, então, a uma silhueta que acaba de assumir-se como desconhecida, uma silhueta robusta que nos obriga a olha-la de um ângulo que decido chamar de "ângulo de vassalo", um conceito assumidamente depreciativo. E é contra isto que se destrói todo aquele grotesco pedestal, conduzindo a estátua ao patamar terrestre, onde se olha de frente. Assim, cara-a-cara, podemos começar a dissertação.

Como já se referiu, a figura do Bispo Alves Martins deverá permanecer alheia a todo este processo conceptual. Em tom de crítica, apresenta-se uma iconografia segundo as alegorias do Cesare Ripa, uma alegoria híbrida entre "Acinesia", "Inerzia", "Stagnazione". Os pássaros, versão pop da familiar pomba pós-diluviana esvoaçam sem excepção numa direcção, que se assume como modal, pássaros que representam uma sociedade, numa simbologia muito própria do cantor Terry Allen, com o seu country. Contrariamente, a inflexível figura central, parece olhar numa direcção que quero ter como anti-cronológica, repare-se que a sua postura é de tal modo rígida, que nada parece movê-la, um perfil acorrentado a uma condição moral preenchida por dogmas de diferentes categorias.

A apresentação

Do lado direito encontra-se o cartaz relativo à apresentação deste cromo. Para aceder ao registo de alguns dos momentos que acompanharam a apresentação, por favor veja a nossa página do facebook.

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